“Será que eu tenho o direito
de lhe acordar a noite só porque tive um pesadelo ou apenas sonhei com você,
acordei assustada com o coração saltando de meu peito? Será que eu tenho o
direito de dizer que te amo ainda? E será que você irá ouvir-me, entender que
sinto sua falta?”
Era o que pensava Antônia a
todo o momento. Ela vagava pela casa já vazia, era clara, porém não havia
janelas e portas abertas. Todas aquelas pessoas que passavam por ali, todas
indiferentes a ela. Era como se ela fosse invisível, isso a incomodava. Por
vezes acordava aos gritos chamando seu amado, Marcos era seu amor, o amado de
toda a vida e por toda a vida. Ela não entendia porque ele tinha a deixado ali,
sozinha. Ele não ligara, visitara, não mandava cartas ou se quer um recado por
alguém. Em seu pouco tempo de lucidez
Antônia tentava encontra-lo por todo canto, com aqueles seus olhos verdes
vidrados no nada ela se debatia, chorava e se sentia injustiçada, afinal ela só
tinha o amado, o protegido, o cuidava a todo o momento, ela tinha vivido apenas
para ele.
Sua última lembrança era de
ter lido em um e-mail uma bela proposta de Susan, chefe de Alan. Ela dizia:
“Meu amor, não vejo a hora de nos mudarmos para Carolina do Sul. Tenho fé que
as coisas hão de se ajeitar e seremos enfim felizes. Eu, você e nosso futuro
bebê! Te amo muito. Beijos.”
Eis que Antônia tentava dia
após dia tentando se lembrar de onde ela estava, quem eram aquelas pessoas,
onde estava seu amado e porque não havia ninguém conhecido por perto, porque
dela estar completamente isolada. Era extremamente difícil já que passava a
maior parte do tempo tendo pesadelos ou apenas desligava-se em meio a uma escuridão.
Em um de seus sonhos, o mais claro de todos, ela se via em seu antigo
apartamento coberta de sangue, ela escorregou em meio aquele mar negro e ao
cair ajoelhada percebe alguém na cozinha. Era o corpo de um homem, com a visão
turva tenta esfregar os olhos e se arrasta até lá. Toma um enorme susto ao
perceber que era Alan, completamente desfigurado, ela mesmo o conheceu pelo
cabelo, tipo físico e aliança que tinha seu nome dentro. Ela o sacudiu gritando
seu nome e parecia cair partes de seu corpo e irem seguindo o fluxo de sangue
por toda cozinha. Acordou limpando-se, pobre Antônia, achava que ainda estava
lá, ao lado de seu amado. Rapidamente lembrou tudo que havia feito, lembrou que
ela leu aquele e-mail ates que Alan chegasse em casa e sentiu-se um lixo,
sentiu-se traída e facilmente substituível. Seus olhos cheios de lágrimas, suas
mãos que não conseguiam nem se quer segurar um copo, aquele aperto no peito,
aquela dor de saber que estava sendo traída, assim, apunhalada pelas costas e
tudo ali, bem na sua cara. Então levantou-se, respirou fundo e preparou um belo
jantar. O favorito de Alan, costelas assadas com molho de churrasco, salada de
ervilha e batata, arroz e seu vinho tinto preferido. Preparou a mesa como em
uma ceia, pôs velas e deixou a casa inteira à meia luz. Alan chegou e
surpreendeu-se, deu-lhe um beijo quente e disse o quanto a amava. Deixou sua pasta
sobre o sofá, afrouxou sua gravata, tirou os sapatos e sentou-se. Deleitou-se com
prazer, seus olhos estavam vibrantes e completamente voltados para Antônia. Ela
então se levantou e disse que lhe faria uma massagem, ele relaxou e fechou os
olhos. Mal podia imaginar que os fecharia pela ultima vez. Ela pegou calmamente
a maior faca da gaveta que estava atrás de Alan e com um golpe só fez com que
atravessasse sua garganta, e fez isso por várias vezes. Não se ouviu gritos,
gemidos ou palavras, ele apenas caiu e ela como um animal em busca da caça o
esfaqueava lentamente olhando em seus olhos vermelhos e o fez até que se
fechassem. Ela não estava arrependida, afinal ela sabia que ele só poderia ser
feliz com ela, ela estava o protegendo de ser infeliz sem ela ao seu lado para
lhe dizer que o amava todos os dias. Quem o faria tão feliz se não ela?
Antônia só esqueceu de checar
novamente seu e-mail para ter certeza de que era aquilo mesmo, de que o amor da
sua vida pretendia viver longe dela e fazia isso pelas suas costas. Se por
descuido de seu ódio e possessão tivesse retornado segundos depois de ter lido
aquele e-mail teria lido: “Alan querido, me desculpe pela mensagem anterior,
fiz uma enorme confusão! Quem manda ter o mesmo nome de meu marido..
Bom descanso. Aproveite o
final de semana e mande um beijo para Antônia, precisamos marcar outro almoço!
Abraços.”